terça-feira, 6 de setembro de 2011

-‘Aqui é minha casa, minha fazendinha, minha vida’!-

A conservação do saber acumulado pela comunidade tradicional da
Fazendinha-Sapê é básica para garantir a preservação ambiental
de toda aquela região. Esse saber envolve dimensões complexas,
apreendidas no dia a dia, na interação com os ecossistemas e na
constante observação dos seus ciclos e da sua biodiversidade. Assim
se determina a diversidade cultural das pessoas que integram um
grupo com características tão peculiares. Assim elas se reconhecem
na integração das suas vivências locais, nos seus sítios, nas suas
casas.

- Aqui é minha casa - O novo nome que o governo municipal resolveu dar ao programa
Minha Casa Minha Vida para garantir sua marca própria em Niterói, é mesmo
pura maquiagem e jogada de marketing para camuflar a dura realidade que está
sendo imposta aos moradores da Fazendinha - Sapê pela prefeitura, que planeja
desapropriar suas casas, desconsiderando suas relações sociais e ambientais,
em total desrespeito à identidade cultural de toda uma comunidade tradicional,
invisível aos olhos de um poder público a cada vez mais privado. Assim, quase
impotentes diante da cumplicidade dos interesses políticos e econômicos, pessoas
simples precisam lutar muito para defender seus direitos, para garantir sua casa, sua
fazendinha, sua vida em comunidade: -‘Aqui é minha casa, minha fazendinha, minha
vida’!

Cerca de 1500 pessoas serão expulsas de suas casas, de seus sítios na Fazendinha-
Sapê, para dar lugar a 7 mil apartamentos, atingindo, inclusive, áreas de proteção
ambiental. Relaxem, ambientalistas, o secretário verde, com certeza, vai novamente
recomendar que todos sejam pintados de verde, como exigência do licenciamento
ambiental. Muito bom!

Segundo a prefeitura,“o sítio Carvalho integrará o projeto como um polo
desenvolvedor”. O que será isso!?

A versão oficial, publicada em grande estilo no atual “diário oficial do governo
municipal: O Fluminense”, com foto e manchete na capa da edição do último domingo
(4/9/2011), anuncia isso como o maior projeto habitacional de Niterói: “ - BAIRRO DA
FAZENDINHA TERÁ A ESTRUTURA DE UMA CIDADE - Ao todo, serão beneficiadas
30.000 pessoas”. E apresenta como objetivo principal: “reduzir o déficit habitacional
da cidade e atender, prioritariamente, às famílias desabrigadas das chuvas do ano
passado e à população em área de risco”. E mais: “O prefeito deixou bem claro que
não queria que essas moradias fossem feitas na periferia da cidade e que o bairro-
modelo não fosse um conjunto habitacional onde os moradores perdessem sua
identidade.”

Ou o prefeito realmente não conhece sua cidade ou a comunidade tradicional
do Sapê-Fazendinha é, de fato, invisível aos olhos do poder municipal. Zelo com
identidade dos futuros moradores, senhor prefeito? Quem ignora a identidade cultural,
social e afetiva dos atuais moradores, construída há várias gerações, pode destruir
toda essa relação e prometer tudo isso aos futuros residentes de apartamentos,
embolados em cerca de 7 mil prédios? Propaganda enganosa é isso aí! E assim é a
marca registrada do seu desgoverno, prefeito: pura propaganda enganosa!

E as comunidades enganadas são aquelas mesmas que perderam vidas de parentes
e amigos, que perderam suas casas, suas referências culturais, sociais e afetivas,
por total omissão desse mesmo prefeito, omissão desse mesmo grupo que ainda
está no poder em nossa cidade e que criou as condições favoráveis à tragédia do
Morro do Bumba, ao permitir e incentivar moradias em cima do lixão. Tinha lá até
placa de pavimentação de ruas - as mesmas que soterraram casas e pessoas - obra
executada pelo “zeloso” executivo municipal. E agora, prefeito, vai vender casas
de pombo a essas pessoas? A esses tão sofridos cidadãos, seus conterrâneos e,
lamentavelmente, seus prováveis eleitores? Confinados no gueto imposto?

Na audiência pública realizada no último dia 29 de agosto, na Câmara Municipal,
outra estratégia torpe da prefeitura foi a convocação da população desabrigada do
Bumba, transportada com apoio do poder público, para promover o confronto com
os moradores tradicionais da Fazendinha. Manipulação barata, desmascarada pelos
representantes do PSOL, oposição única, solitária em meio aos partidos da base
governista, todos coniventes. A matéria do atual “D.O. municipal – O Fluminense”,
registrou cerca de 300 pessoas na audiência, sem publicar um só depoimento dos
moradores excluídos ou da oposição. Sem o direito do contraditório. Mas a sabedoria
popular reverteu o quadro oficial, calou os discursos oficiais, desmontou a cena
armada pela mesa governista, que acabou ficando pequena, do tamanho do seu
desgoverno, escondida atrás do enorme banner “clean” da falsa propaganda oficial.

Atenção, prefeito, “amanhã há de ser outro dia... Apesar de você”!

Você já se deu conta disso tudo ou sua corte continua elogiando seu manto e
aplaudindo seu desfile, sem apontar que o rei está nu? A tal ponto, que nem sequer
o seu próprio espelho reflete a si próprio a crua realidade do seu desgoverno, tão
medíocre, conivente com a especulação imobiliária?

Conivente, sócio! Pode até ser. “- IPTU arrecada R$120 milhões de janeiro a julho – O
rápido crescimento imobiliário vem impulsionando a arrecadação de Niterói. (...) Desde
o início da gestão do prefeito Jorge Roberto Silveira, sua arrecadação já aumentou
19% (R$ 101 milhões entre janeiro e julho de 2009). – Alta arrecadação contrasta
com baixos investimentos- (...) apesar da alta arrecadação municipal, a execução
dos investimentos em ações que melhorem a qualidade de vida dos moradores não
avançou na mesma velocidade, pondera o Professor da UFRJ, Mauro Osório”. O
GLOBO NITERÓI – Flávia Milhorance - domingo – 28 de agosto de 2011.

E aí, prefeito, “qual é o seu negócio, o nome do seu sócio”?

Laura França

Um comentário:

  1. Laura, você não deixou nada a ser dito! Que alívio! Que desabafo!
    Angélica.

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