domingo, 3 de abril de 2011

Sobreviventes da tragédia no Bumba revelam suas histórias de sofrimento


n'OFluminense por Wilson Mendes 03/04/2011
O FLUMINENSE inicia série que mostra como vivem os sobreviventes da pior tragédia natural de Niterói, que matou 169 pessoas e completa um ano no dia 6 deste mês

Sabe qual foi o momento mais triste? Ver que estávamos dependendo de uma igreja para comermos macarrão com salsicha”. A expressão no rosto e as lágrimas escorrendo pela face provam que o trauma do desmoronamento do Morro do Bumba ainda está presente na vida da família de Maria Aparecida de Carvalho, de 45. A casa também é a mesma de 45 anos, em uma das encostas da Ladeira do Bumba. O retorno da família foi forçado pela dificuldade em pagar o aluguel.
“Minha neta é uma criança de seis anos, mas o desespero dela quando falta luz mostra o quanto ela já viveu. Ou não, porque, na verdade, a gente não vive mais. Estamos aqui vegetando aguardando a ajuda prometida, sobrevivendo”, resigna-se.
Abril: O mês da tragédia
A noite do dia 6 de abril de 2010 nunca será esquecida por Maria Aparecida, seu marido, filhos e netos. Na lembrança, a caminhada entre escombros de casas vizinhas espalhadas pelas ruas, tudo misturado à lama e ao lixo. Depois, o abrigo e a moradia de favor se tornaram o novo cenário da tragédia.
“Quando tudo foi interditado, ficamos dois dias em uma igreja. Fomos muito bem cuidados, apesar de ser uma situação muito triste. Depois, ficamos três meses na casa de um irmão. Uma casa pequena que, além da família dele, abrigou outras duas. Também é ruim saber que o desconhecido na igreja nos tratava melhor que muitos dos parentes que estavam naquela casa”, desabafa Maria.
A vida no imóvel do irmão era difícil. A convivência de cerca de 15 pessoas fragilizadas pelo trauma de perder amigos e suas moradias em um apartamento de dois quartos acirrou diferenças e fez aflorar problemas antigos, esquecidos pelo tempo e pela distância. “Era um inferno viver daquela maneira”.
Julho: Mudança e aperto
Com as primeiras parcelas do aluguel social, um benefício pago aos desabrigados pelas chuvas, a nova mudança. Desta vez para uma casa no Caramujo, bairro que recebeu muitas outras vítimas. Mas a convivência forçada com outras pessoas não ficou totalmente para trás. A disparada dos valores dos aluguéis na cidade fez com que grupos se unissem para dividir a conta.
“Depois de três meses fomos morar de aluguel no Caramujo. A casa não era grande e, mesmo assim, o menor preço que encontramos foi R$ 650. Na época todos os aluguéis subiram na cidade. Além de complementar o aluguel, tínhamos todas as taxas e os remédios para tratar a hipertensão do meu marido. O dinheiro nunca dava”, diz Maria.
O aluguel era dividido com outra família, que ocupou a mesma casa na tentativa de diluir as despesas, mas a dificuldade persiste e o filho, Carlos Alberto Carvalho Costa, de 19, tranca a matrícula do Ensino Médio para trabalhar e complementar a renda da família.
“Isto, com certeza, foi o que mais me comoveu em toda a história: o esforço dele. Passava o dia nos amparando, foi trabalhar para nos ajudar, foi se mostrando forte. Mas eu sei que acordava à noite com o choro dele e nem por isso ele foi fraco. A situação era mesmo muito intensa”, lembra.
Agosto: Decisão arriscada
O mês foi decisivo para a família, que resolveu ignorar os riscos e retornar para a Ladeira do Bumba, 287, casa onde Maria nasceu. “Se tenho medo? Tenho pânico. Quando chove todo mundo se reúne e fica esperando. Se a chuva não passa, a gente desce o morro a hora que for e fica na casa de algum amigo lá embaixo. São pessoas muito especiais, que não medem esforços para nos ajudar a não correr tanto risco”, desabafa, enumerando as suas razões.
“Não conseguimos morar de aluguel.  Além de desabrigados, viramos devedores. Então decidimos pegar o resto do aluguel que tivemos, reformar a casa aqui no Morro do Bumba e subir a ladeira de volta,” admite.
Dezembro: Sem Natal e sem réveillon
Um mês de obras na casa no Bumba. As rachaduras que ficaram como cicatrizes da tragédia foram escondidas com massa corrida e a pintura deixou a lembrança atrás de uma fina camada, de onde ficava mais difícil de voltar à tona. Apesar da tentativa de isolamento do passado, a vida não é mais a mesma.
“Não comemoramos o Natal nem a virada de ano. Amigos que costumavam nos visitar morreram, outros estão espalhados em outras vizinhanças, muitos em São Gonçalo, onde os aluguéis ainda são mais baratos. A vida aqui nunca será a mesma”.
Fevereiro: Uma alegria e nova frustração
O nascimento de mais uma neta, Milena, a mais nova integrante da família Carvalho, trouxe alegria renovada para todos, “a primeira alegria em muitos meses”, diz Maria. “Trouxe mais vida, uma pessoa que não viveu o terror que vivemos aqui, isso é bom”.
Mas o mês reservaria ainda mais um duro golpe para a faxineira. Mesmo com as obras na casa, a família será obrigada a procurar outro local para morar. Em nova vistoria da Defesa Civil, a casa foi novamente interditada. Além das encostas perigosas acima e abaixo do imóvel, a cisterna pode estar comprometendo a estabilidade do terreno, principalmente se estiver vazando.
“A Defesa Civil também voltou aqui. Condenou novamente. Mas enquanto der para ficar, vamos ficando. Dizem que corremos risco, mas saindo corremos o risco de despejo, risco de passar por constrangimentos, risco de morar na rua,”, finalizou.
Futuro incerto
“Morar aqui é muito difícil. Falta coleta de lixo, iluminação, os Correios não vêm até aqui. Durante o dia a rua aqui ainda tem algum movimento, pessoas que, como nós, estão voltando. Algumas crianças brincando, mas à noite é um cenário de terror. É como se a noite do Bumba tomasse todos e a tristeza é coletiva.”
Medos
Além de novos deslizamentos, é de que serviços como água, luz e outros sejam cortados. Sabemos dos riscos, mas não temos para onde ir.
Esperança
Só queria minha casa de volta. Minha mãe comprou a casa, eu nasci aqui e construí a minha vida. Todos os dias alegres que passamos aqui. Mas ela foi condenada por duas vezes, então, mais cedo ou mais tarde, vamos ter que sair. A esperança são os apartamentos aqui em frente, mas mesmo assim ninguém sabe ao certo para quem são. Alguns dizem que vamos ganhar unidades, outros falam que ali é apenas para as pessoas do Morro do Céu. Ainda não sabemos ao certo o que vai  acontecer conosco,” diz  Maria Aparecida de Carvalho.
Segundo a prefeitura, no bairro do Jacaré serão construídos 480 apartamentos. No Sapê estão previstas 5 mil novas unidades. No Viçoso Jardim, serão mais 180 apartamentos. Também serão erguidos imóveis nos bairros do Fonseca, no Caramujo, no Engenho do Mato, no Bairro de Fátima, na Ititioca e em Várzea das Moças, chegando a um total de 7.510 unidades, que serão voltadas, prioritariamente, aos desabrigados das chuvas de abril do ano passado. A previsão é de que todas essas unidades sejam entregues até o fim de 2012.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Lembre de assinar! Só comentários COM NOME serão postados.
Obrigado por participar!