sábado, 1 de janeiro de 2011

Niterói e a Baía de Guanabara

Imperdível entrevista com Luís Antônio Pimentel, historiador que tem muito a contar sobre Niterói e a Baía de Guanabara Blog de Niterói 13 ago2010 

Encontrei essa entrevista por acaso num documento de texto, perdido entre tantos outros documentos antigos. Trata-se de uma entrevista realmente fenomenal, que você não se arrependerá de ler. A entrevista é conduzida por Pedro Argemiro e Webber Lopes e foi feita no início dos anos 2000. Infelizmente, continua atual.
Como não a encontrei na web, resolvi republicá-la na íntegra, devido ao seu valor histórico e cultural.

Baía de Guanabara: Água Escondida entre a Serra do Mar e o Oceano Atlântico

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De lindas paisagens que recebem turistas em luxuosos transatlânticos a línguas negras despejando milhões de litros de esgoto em suas águas, a Baía de Guanabara convive, diariamente, com situações diametralmente opostas. Muito mais do que o cartão postal mais famoso do Brasil, ela guarda por trás de seus incontáveis encantos, histórias de sangrentas batalhas pela sua posse. Lutas que perduram até hoje, só que desta vez para salvá-la da poluição e do descaso das autoridades. E para desvendar estes mistérios ninguém melhor do que o jornalista e historiador Luís Antônio Pimentel, homem de rara bravura e determinação que na década de 30, do século passado, viveu, no Japão, os momentos que antecederam a Segunda Guerra Mundial no Pacífico.

O primeiro nome da Baía de Guanabara foi Niterói?

Sim, foram os índios que deram. Eles chegaram pelo mar, pela boca da Baía e não por terra. Desta forma, você vê bem que ela é Água Escondida. A sua entrada que é demarcada pelo Pão de Açúcar de um lado e a Fortaleza Santa Cruz do outro é muito pequena. E quem entra por um sistema geográfico de boca tão estreita assim, não pode imaginar que exista lá dentro – e continua existindo, apesar de todos os aterros criminosos – essa imensidão de água. Inclusive com uma ilha do tamanho da Ilha do Governador.

Este era o nome mais correto para a Baía?

Niterói quer dizer Água Escondida, Água Oculta. E digo mais, Água Oculta é a tradução mais apropriada. Água que está por se descobrir. Mas de qualquer maneira, Água Oculta ou Água Escondida é a mesma coisa em tupi, porque esta língua não tem sinonímia rica. A sinonímia vem do português.

Como o nome Niterói deixou de ser o da Baía e passou a ser o da cidade?

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Niterói surgiu como o povoado de São Lourenço dos Índios. Depois, ela se estendeu e ficou sendo a Praia Grande. A rigor, essa Praia Grande se estendia do Gragoatá até a Ponta da Armação, na Ponta D’Areia. Quando ganhou este nome, já era intenso o movimento de gente da corte vindo para Niterói. Inclusive com visitas constantes de Dom João VI. Ele tinha uma doença de pele que sofria sensíveis melhoras ao tomar banhos de mar na Praia de São Domingos. Deram para ele, neste bairro, um casarão de três andares que perdurou, mais ou menos, até 1908. Pela tradição da época toda vez que o rei dormia em uma região, ela passava a ser chamada de real. Então, a cidade ganhou o título de Vila Real da Praia Grande. Por sinal Dom João VI gostava muito de Niterói e a projetava bastante. Certa vez, ele passou em revista tropas militares, que iam para ao Sul, em Niterói. Debret registrou o acontecimento em uma de suas gravuras.

Depois a Vila Real da Praia Grande passou a se chamar Niterói?

Isto foi em 1835. Os governantes da época queriam um nome mais imponente e escolheram Niterói. Só que a sua tradução, Água Escondida, ficou meio imprópria. Se esse nome fosse aplicado mais recentemente, ficaria mais próprio porque a CEDAE escondia a água. Essa nova companhia (referindo-se a Águas de Niterói – nota da redação), eu não sei ainda se esconde água.

Houve um poeta que também se referia Baía de Guanabara como Niterói?

Foi o Visconde de Araguaia. Ele fez um poema que dizia assim: “Niterói, Niterói como és formosa. Eu me glorio de dever-te o berço…” E o Visconde de Araguaia nunca teria vindo a Niterói. Ele estava se referindo a Baía de Guanabara.

De onde veio o nome Guanabara?

Também veio dos índios. Significa Braço de Mar. Então você vê, não é muito próprio. Mas, enfim é como ela se chama hoje.

O que você lembra em termos de fauna de quando as águas da Baía eram limpas?

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Acabaram com tudo. Os primeiros a sumir foram os grandes bandos de golfinhos. Quando eu era jovem e pegava a barca, os golfinhos vinham brincando na esteira de espuma deixada pela embarcação. Já não se vê a mesma quantidade de golfinhos, na Baía de Guanabara, há mais de 40 anos. Depois, a poluição foi afastando outras espécies.

As baleias vinham visitar a Baía de Guanabara freqüentemente?

Em seus escritos Anchieta afirma que via as baleias passear, soltando esguichos, e penetrar na Baía de Guanabara. Recentemente, uma baleia refez o trajeto descrito pelo jesuíta. Mas, hoje isto é uma exceção. A baleia é outro animal que também foi afastado pelo homem. Quando, eu era jovem uma baleia foi parar na Praia das Flechas e morreu encalhada. De vez em quando isto ocorria, porque existiam muitas baleias.

Havia caça a baleia na Baía de Guanabara?

Havia uma indústria que explorava a caça da baleia. Eles também construíam e reparavam pequenos baleeiros. Depois de arpoado, o animal era retalhado na Ponta da Armação. Seu óleo era muito procurado para diversas finalidades: iluminação, lubrificação, fazer tinta, além de ser comestível entre outras coisas.

Era também usado na construção civil.

Como não existia cimento na época. Era usada para construir os prédios, igrejas e o viaduto dos arcos uma mistura de óleo de baleia e cal de concha.

Você lembra a última vez que se banhou na Baía de Guanabara?

Me lembro, mas já me banhei com muito nojo. Foi na enseada de São Francisco e estava cheio de gente lá.
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Quando foi isto?

Há uns cinco ou seis anos. Fui por extravagância, lugar correto para se banhar é em uma praia oceânica. A Baía de Guanabara, hoje, é um mar de dejetos, um mar de cocô.

Mas, você se lembra da época em que se banhava tranqüilamente?

Ah, eu me lembro. A Praia de Icaraí, a de Boa Viagem, o Saco de São Francisco e até a Praia de Adão e Eva eram muito boas. E eu percorria tudo isso, nadando, em canoas e barcos. Também pescava. Fiz muita camaradagem com os pescadores. Era uma coisa formidável. As águas eram limpíssimas, sabe.

Você acha que um dia vai poder voltar a tomar banho nas águas Baía de Guanabara?  Há como e interesse em despoluí-la?

Como despoluí-la há. Agora, eles não deixam. Li nos jornais que chegaram grandes recursos financeiros do estrangeiro para a despoluição. Mas os anos se passaram e onde estão os resultados?

Quem apenas vê as belezas da Baía de Guanabara, não sabe que por trás delas há uma história muito sangrenta. Fale um pouco disto.

Morreu muita gente. Ocorreram batalhas desde os tempos imemoriais, de antes do descobrimento. Durante a Revolta da Armada, do Floriano, em 1893, os revoltosos bombardearam muito Niterói, fazendo um grande estrago na cidade. No bairro do Barreto havia uma prainha, de uns 20 a 30 metros, chamada Porto do Meyer. Lá, os revoltosos concentraram muitas embarcações, para tentar desembarcar. Mas, as forças em terra, que eram contra eles, já estavam preparadas. Armaram em cima de uma pedra, que passou a se chamar Pedra do Holofote, o maior holofote da Marinha que existia na época. Quando os revoltosos estavam desembarcando, durante a noite, o holofote foi ligado. Surpreendidos e com a visão ofuscada pela luz, eles foram liquidados ali mesmo.

Foi uma carnificina?

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Ah foi! Acabaram com o pessoal ali mesmo. Mas, muito mais sangue foi derramado nestes 500 anos. Após o descobrimento, ocorreram muitas batalhas sangrentas entre portugueses e franceses, envolvendo tribos indígenas que já eram inimigas naturais. Os franceses chegaram a praticamente controlar a Baía de Guanabara, restando como último reduto português a Ilha da Boa Viagem. Depois com a ajuda deAraribóia, cacique da tribo Temiminó, os portugueses conseguiram expulsar os franceses. Foram muitas e tremendas batalhas, com muito sangue derramado, se matou muita gente. Foi o que eu chamo de a batalha da igara contra a belonave, da flecha contra a arma de fogo. Depois conversaram com o Antônio Maris ou Marins, marido de Isabel velha, que era dono da Capitania Hereditária daqui para que ele cedesse para Araribóia terras em Niterói. Instalaram Araribóia no morro onde ele tinha visibilidade de toda a entrada da Baía. Naquela época dava para se ver tudo, hoje não. Ali, ele se radicou e começou um povoado. Depois da morte de Araribóia, as terras foram griladas por brancos e mestiços.

Como os últimos índios da Baía de Guanabara foram exterminados?

De várias formas. Mas uma das maneiras mais fáceis, mais eficientes e mais criminosas de destruir uma civilização é acabar com seus costumes, com seus hábitos, com sua religião, com sua residência, com suas lendas, com sua música, com suas vestes. Acabar com sua cultura. Acaba a cultura, acaba o povo.

Tinha índio canibal na Baía de Guanabara?

Todo índio nosso era antropófago. Estes povos primitivos eram todos canibais mesmo. A princípio, eles comiam os heróis do inimigo, na esperança estulta de que comendo aquilo, ele ia ficar valente também. Mas, acabou gostando de comer carne humana.
Fotos: A foto da Baía de Guanabara à noite é de Caio Feres. E a foto do por-do-sol na Baía de Guanabara é de Dani Gama. As fotos de Luis Antônio Pimentel são reproduções.

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