segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cores da tragédia na serra: solidariedade para cobrir o cinza da tristeza

Artigo do psicanalista Carlos Eduardo Leal, voluntário da Cruz Vermelha
A solidariedade pode ser mais um dos muitos nomes que podemos utilizar para a ação voluntária. Mas creio que diante de tanta tragédia, qualquer nome torna-se precário, pois é impossível medir e quantificar a dor. Esta, nestes momentos, torna-se inominável.
Tenho uma casa em Teresópolis e, como muitos, no último fim de semana fui levar donativos para as vítimas. Mas, eis que chegando lá, tornou-se impossível ficar indiferente e, ato contínuo, alistei-me na Cruz Vermelha. Como psicanalista, fui designado para a delegacia/IML, que ficou responsável pelo acolhimento das pessoas em busca de parentes mortos ou desaparecidos.
Em minutos, tive que esquecer tudo que sabia e reaprender a cada novo caso. Reaprender a dimensão da vida e, principalmente, da morte. Ali, naquela dimensão desumana, muito além de tudo que até então, ao longo dos meus quase trinta anos de consultório, havia vivido. Tive que improvisar algumas coisas: um abraço que confortasse, acolher um choro, pensar rápido sobre o flagelo de uma família, acolher um corpo literalmente despedaçado e, talvez, o mais difícil, encaminhar o olhar das pessoas ao encontro de inúmeras fotos de corpos, rostos desfigurados, inchados pela terra e pela água, roxos e disformes. A tentativa de reconhecimento de alguém que um dia foi tão próximo na felicidade e no compartilhamento da vida.
Uma tentativa de reconhecimento de alguém que se sabia de cor o tom dos cabelos, a espessura das sobrancelhas, o corte das unhas. Pequenos detalhes que se desfiguram diante da enchente real de terra, paus, pedras, lama e, da enchente afetiva de emoções que transbordam para outras margens do sem-fim. Margens destroçadas, sem bordas definidas. Rios de lágrimas que nunca presenciei. O que dizer de uma mãe que procura pelo seu menino de 2 anos e fica a olhar fotos de crianças mortas, deformadas pela cor, e pela terra, que invadiu de forma selvagem as bocas, os olhos e os narizes? Se é dura essa descrição? Pensem no que estariam pensando aquelas mães ao não conseguirem reconhecer um pequeno traço de seus filhos. Pensem que elas poderiam estar pensando também nas outras mães, que nunca mais vão encontrar vestígios físicos ou mesmo aquele cheiro particular de suas crianças.
O pior desta tragédia é que com o passar do tempo, todas esses sobreviventes se tornarão invisíveis. Pessoas comuns, numa miséria incomum, mas desassistidas pelo poder público. Vimos e temos visto o mesmo filme ao longo dos anos. Hoje, elas ainda frequentam os jornais. Amanhã, quando outra desgraça sobrevier, eles serão apenas um número numa estatística cruel e perversa.
Por isso é preciso uma assistência continuada. A educação, a saúde e a prevenção de riscos não é um evento, mas uma ação permanente. O evento, a catástrofe, é pontual, mas o movimento para se reduzir a dor, a perda e as mortes, deve ser um projeto de toda uma vida.
Ainda não há uma tinta para colorir a tragédia desse desamparo. Ainda não há uma cor definida para amenizar o cinzento dessa tristeza. Porém, a solidariedade talvez possa ser o nome para se começar a pensar na cor da esperança.

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