sábado, 1 de janeiro de 2011

A Carta do Cacique Seattle, em 1855

Os grileiros, ah os grileiros. Espalham cercas e dizem: isso aqui é meu!
Mas quem é dono da terra?!

Isso me lembra a carta de um índio...
Chefe Sioux Touro Sentado - Clique sobre a imagem para vê-la ampliada



A Carta do Cacique Seattle, em 1855
Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos 
(Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Faz já 
147 anos. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade. A carta: 





"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande 
chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, 
pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois 
sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O 
grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza 
com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha 
palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.


Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não 
somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de
nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o 
meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas 
escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do 
meu povo.

    Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão 
de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo 
quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai 
embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, 
nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a 
terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do 
homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que 
nada compreende.

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa 
ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser 
um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E 
que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a 
conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o 
espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma 
de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o 
mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar 
que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.

Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como 
se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. 
Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os 
abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante 
cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos 
apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos 
os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto 
acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também 
os filhos da terra.

    Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem 
sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo 
com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos 
os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns 
invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado 
em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um 
dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus 
é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja 
possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira 
ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é 
demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais 
depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma 
noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados 
todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as 
colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão 
acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; 
o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.


    Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais 
as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro 
oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos 
selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos 
que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas 
que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois 
que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma 
nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas 
e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. 
Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. 
Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, 
e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. 
Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem 
mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."
    

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