sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"Os europeus estão preparados para um movimento ecológico"

Os olhos dos europeus abriram-se: a Terra é finita e a tecnologia não nos salvará. Há economistas a rejeitar o crescimento económico. O jornalista francês Hervé Kempf escreveu um livro onde vai mais longe e pede o fim do capitalismo em alternativa ao caos. Para salvar a democracia é preciso "fechar as televisões e ir para o café falar".
Hervé Kempf
Hervé Kempf (Foto: Fábio Teixeira)


Nem sequer é a metade. O Eurobarómetro mostra que 64 por cento dos europeus não acreditam que a tecnologia vá travar as alterações climáticas e o aquecimento global. Preferem repensar a forma como vivem, mesmo que isso signifique a diminuição do crescimento económico.

O relatório saiu em Novembro e reflecte o Zeitgeist pós-recessão. A 17 de Novembro, a Nature - a revista com mais impacto no meio científico - trazia um comentário do economista Peter Victor, da Universidade de Toronto, no Canadá, com o título Questionando o crescimento económico.

O autor do livro de 2008 Managing without Growth: Slower by Design, not Disaster propunha que o actual crescimento económico assente numa produção e consumo cada vez maiores, e que se traduz na necessidade de as políticas de cada país elevarem o seu PIB, tem que parar.

Este modelo não só é um fenómeno recente, que teve início na segunda metade do século XX, como se tornou insustentável - tendo em conta as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, a pressão sobre os ecossistemas e o galopante crescimento da população mundial, que em 2050 atingirá os nove mil milhões de pessoas.

Esta consciência é crucial para Hervé Kempf, jornalista francês. "Descobrimos pela primeira vez na História que a natureza tem uma espécie de limite e temos que nos adaptar a isso", disse Kempf numa conversa com o P2, no Instituto Franco-Português, em Lisboa. "A sociedade tem que se tornar ecológica, porque, se não o fizer nas próximas décadas, vai ser o caos."

O jornalista esteve em Portugal para dar duas palestras sobre o seu livro publicado em 2009, Para Salvar o Planeta Livrem-se do Capitalismo (editora Livre). A obra é uma continuação na linha de pensamento de Kempf, que tem formação em Ciências Sociais, se iniciou no jornalismo de ciência na década de 1980 e hoje escreve sobre ambiente no jornal francês Le Monde. Em 2007, editou o livroComo É Que os Ricos Destroem o Planeta.

Que capitalismo?

"É uma forma ideológica de colocar a questão", alerta Viriato Soromenho Marques, em conversa por telefone com o P2. O professor da Faculdade de Letras também defende ser impossível continuarmos com um crescimento económico global indeterminadamente. Mas questiona: "Estamos a falar de que capitalismo? O dos Estados Unidos não é igual ao da França, que não é igual ao da Noruega, que é diferente do da China."

"O problema central é que tivemos sociedades no século XX que não eram capitalistas e não eram sustentáveis, como a Rússia e a China. Hoje, a China, que agora é capitalista, continua a ser insustentável", acrescenta Soromenho Marques. O antigo dirigente da organização ambiental Quercus, membro do grupo de aconselhamento sobre ambiente da Comissão Europeia, ressalva que nunca leu nada sobre o trabalho de Hervé Kempf, mas lembra que existe em França uma forte corrente filosófica e política contra o crescimento económico.

A tese defendida pelo jornalista francês alega que vivemos num regime capitalista que tem conhecimento que a biosfera está a chegar a um limite de uso, mas recusa-se a mudar o seu statu quo por estar assente num consumo e crescimento constantes. Por outro lado, para obter este consumo celebra o individualismo ao máximo. "O capitalismo é o sistema que considera que a pessoa humana está em competição com todas as outras, ou está unicamente interessada no seu destino e talvez na sua família e amigos", afirma.

Soromenho Marques discorda: "O individualismo foi uma grande conquista da humanidade. Não podemos confundir com o egoísmo - que existe quando o indivíduo se pensa separado da sociedade -, quando para nascer, viver e morrer necessita dos outros." Segundo o especialista, o egoísmo é um instrumento de "domínio, que permite a tirania". E a publicidade, um agente da economia de mercado, lança mensagens subtis que o promovem, estimulando as pessoas a, por exemplo, quererem ter coisas que outras não têm.No livro, Kempf aponta para os últimos 30 anos em que tudo foi exacerbado. Houve uma promoção do consumo e uma mercantilização e privatização de tudo: bens públicos, o corpo humano, o sexo ou até o divórcio - que promoveu, por exemplo, a existência de duas casas para uma família. "A questão não é criticar o divórcio, é criticar a extensão da sua comercialização. Tudo teve que se comercializar. A saúde, a educação, a polícia, a água, a vida (as patentes dos organismos geneticamente modificados), os órgãos", enumera.

Segundo o jornalista, que sempre se distanciou do marxismo, um dos fenómenos mais demonstrativos da aceleração da política do lucro traduziu-se na crescente desigualdade entre ricos e pobres que aconteceu desde 1980. Nos Estados Unidos, o pico desta diferença foi atingido em 2007, quando metade da riqueza era detida por um décimo da população.

"Não é possível passarmos para uma economia ecológica, se não reduzirmos esta desigualdade", explica Hervé Kempf. "É difícil que as pessoas mudem as suas vidas, se continuarem a ver alguns com grandes barcos e grandes carros."

No comentário da Nature, Peter Victor punha em causa o conceito do PIB como indicador da saúde de um país. O autor apresentava outros indicadores que incorporam a degradação ambiental, o desgaste dos recursos ou que têm em conta o bem-estar das pessoas.

O economista apontava ainda para o facto de a felicidade, a partir de um dado momento, deixar de depender do crescimento económico. E explicava que o decrescimento poderia obter-se com medidas como a diminuição das horas de trabalho - no Canadá uma redução de horas ainda obrigaria as pessoas a trabalharem, em média, mais do que na Alemanha.

Medir a felicidade

O Governo britânico decidiu recentemente pôr em prática um índice de felicidade, aferindo o bem-estar dos cidadãos britânicos. "O objectivo é produzir informação actualizada, que afira o bem-estar físico e psicológico das pessoas em todo o Reino Unido", disse uma fonte do Governo de David Cameron, citado pelo Guardian. Países como a França e o Canadá querem fazer o mesmo.

Um relatório publicado em 2009 com o título Prosperidade sem crescimento? da Comissão para o Desenvolvimento Sustentável do Reino Unido também questiona o papel do crescimento: "Se houve uma irresponsabilidade, foi sistemática, autorizada largamente e com um objectivo claro em mente: a continuação e protecção do crescimento económico." O relatório defende uma diminuição do consumo e uma aposta na sustentabilidade com um abandono progressivo (e enquanto possível) dos combustíveis fósseis.

O jornalista francês não fala de decrescimento, mas de um sistema diferente em que a empregabilidade não dependa do lucro e em que o dinheiro que é desviado para alguns seja antes aplicado para diminuir a pobreza e libertar a sociedade do esquema produção e consumo.

"Quando falamos de desigualdade, não é só uma questão moral, é uma questão económica precisa", aponta o escritor, referindo-se àqueles que ganham "demasiado"dinheiro. "Para desenvolver uma economia que ao mesmo tempo tem que ter um impacto ecológico menor e que possa desenvolver o emprego, que responda aos problemas sociais reais, vamos precisar de parte desse dinheiro."

Soromenho Marques também olha para actual crise como um reflexo de um sistema económico desgovernado e não politizado: "A questão central é saber como é que podemos manter o jogo da oferta e da procura, permitir a escolha do consumidor de uma forma sustentável [e ainda ter em conta o ambiente]." "Temos que fazer uma economia verde baseada numa tecnologia que pense nisto", acrescenta. O especialista aponta para os paraísos fiscais e a forma como os conselhos de administração das empresas multinacionais decidem os seus salários como dois exemplos da perversão do actual sistema. Os livros têm tido sucesso em França. Kempf, antes de tudo, diz-se francês e europeu e não pretende dar lições ao resto do mundo, mas sugere que a Europa (e os Estados Unidos) é a janela que define as ambições de vida dos cidadãos dos outros países, tanto para o bem como para o mal.

"Os europeus estão preparados para um movimento ecológico, se conseguirem expelir o capitalismo. A possibilidade da Europa é muito interessante, porque podemos propor este modelo pacífico, podemos entrar em contacto com os outros países [a China, a Índia] através de uma cooperação pacífica. Vamos ter menos poder, mas a sociedade será melhor e provavelmente vamos ter um novo poder simbólico."

Soromenho Marques concorda com este poder e relembra que a União Europeia é a região do mundo que tem uma legislação ambiental mais avançada. "A Europa pode ser uma grande potência a nível tecnológico e de estilo de vida."

Kempf acrescenta que isto só será possível se os cidadãos derem um passo atrás no individualismo e voltarem a estar dispostos a falar, a partilhar, a preocuparem-se com o bem-estar geral. "A ideia fundamental é voltar à praça, ao fórum, como os gregos." Aí tudo é discutido.

"A democracia é discutir, discutir as políticas, confrontar os argumentos", considera o francês. E como se faz isso, como se criam esses espaços? "Eu diria para desligarem as televisões e irem para os cafés discutir com os amigos."

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