sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vamos construir a Ecópolis?

Thiago Guimarães do  blog Pra Lá e Pra Cá
Acabou de sair da gráfica uma brochura do World Council Forum, que precisaria ser urgentemente traduzida ao português. Em Regenerative Cities (uma possível tradução seria “Cidades Regenerativas”), o professor Herbert Girardet – que proferiu uma palestra aqui em Hamburgo, na semana passada – vai direto ao ponto.

“O desafio de hoje não é mais apenas criar cidades sustentáveis, mas sim cidades regenerativas. Trata-se de assegurar que elas não apenas se tornem energeticamente eficientes e emitam pouco carbono, mas que elas enalteçam e não debilitem os serviços ambientais que elas recebem de regiões além de suas fronteiras.”

Ou seja, o conceito de cidades regenerativas induz à reflexão sobre a natureza do relacionamento entre cidade e o interior – e refutar, portanto, a simplista oposição entre a bucólica zona rural e a malvada cidade. Para ilustrar o que se pretende com o conceito de cidade regenerativa, Girardet propõe uma divisão da história urbana em três fases.

1. A Agrópolis mantinha uma lógica e simbiótica relação com seu meio natural. Sem contar com meios de transporte, a terra cultivada ficava próxima dos consumidores. Dessa forma, produtos láticos e hortifrutigrajeiros eram produzidos em um círculo mais próximo da cidade. De um pouco mais longe poderia ser trazida lenha ou serem cultivados grãos. Tudo questão de lógica.

2. Com a revolução industrial emergiu a Petrópolis (nada a ver com a cidade fluminense). A Petrópolis corresponde ao modelo de cidade, no qual todas suas funções essenciais – produção, consumo, transporte – dependem do petróleo e de outros combustíveis fósseis. Com essas fontes de energia, as cidades passaram a ter acesso a recursos globais e abandonaram progressivamente os laços simbióticos que caracterizavam a Agrópolis.

Nos dias de hoje, percebemos como esse modelo é, de qualquer ponto de vista, insustentável. A oferta de recursos fósseis é finita, a produção de resíduos nessas cidades é maciça, a qualidade do ar nas grandes cidades é péssima e os riscos que a Petrópolis traz para o globo são irrefutáveis.

3. Agora é necessário e urgente criar espaços urbanos que restaurem uma relação equilibrada com o meio natural onde se encontram. São necessárias cidades que satisfaçam simultaneamente as necessidades humanas e atendam à resiliência econômica e ecológica. É necessário fazer a transição para a Ecópolis.

A cidade regenerativa não apenas usa racionalmente os recursos que retira da natureza, mas os repõe. Para os transportes urbanos, isso significa não só apoiar o desenvolvimento de carros elétricos e pensar que, com isso, tudo se resolve. Em primeiro lugar trata-se de reduzir a quantidade de movimentos motorizados. Isso implica multiplicar os calçadões e favorecer o usufruto da cidade a pé, construir de uma abrangente rede cicloviária e aumentar a atratividade do transporte coletivo. A Ecópolis sintetiza as diretrizes de desenvolvimento urbano que uma cidade responsável deve perseguir.

Ilustração: Representação esquemática da Ecópolis, a cidade regenerativa (World Future Council)

Pra lá e pra cáThiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.

Um comentário:

  1. Muito boa a postagem.

    Mas gostaria mesmo de lhe parabenizar pela iniciativa do blog, muito bacana.

    Continue firme e forte, pois só a partir de atitudes como a sua que seremos capazes de estimular os questionamentos que visam a melhoria na nossa sociedade.

    Forte abraço,

    Bruno

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