segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um texto do Cláudio Oliver sobre consciência ecológica etc etc etc.

SEXTA-FEIRA, 24 DE SETEMBRO DE 2010


POR QUÊ ?


Ontem conversava com uma de minhas melhores amigas sobre seu desejo de saber fazer e de recuperar sua capacidade de produzir coisas e de assumir tarefas que faziam parte do dia-a-dia de suas avós e tias, e que para ela haviam se tornado tão distantes.

Um movimento mundial, sem coordenação e intuitivo parece seguir nessa mesma direção. Mesmo não sabendo por quê, uma enorme quantidade de pessoas pelo mundo a fora, sobretudo jovens, sente a inclinação e o desejo de retomar coisas fundamentais ao ser humano como cozinhar, costurar, caminhar, se auto-propelir, formar os filhos, plantar e construir. Como se fosse uma pulsão incontrolável, e mesmo sabendo que a massa se pasteuriza em direção à desumanização, se tornou comum ver gente tentando fazer pão, andar de bicicleta e plantar alguma coisa no jardim. Uma memória distante, quase uma dor surda os chama, e muitos buscam, aqui e ali, em livros, em cursos livres, em conversas informais, um jeito de resgatar a sua humanidade.
Enquanto minha amiga falava eu lhe fiz o desafio dos três por quês. Perguntando-lhe seguidamente: “Por quê?”, e a cada nova resposta eu respondia com um “por quê” adicional. Não fiz isso por maldade, mas por saber que daí vêm as respostas e as possibilidades de conversa que geram aprendizagem.
Voltar a fazer coisas, responsabilizar-se por partes fundamentais da vida como a comida e a propulsão, pode, como tudo, simplesmente ser fruto de modismo, pode servir a interesses de mercado, servir para vender livros e encher de alunos os cursos de gente pouco honesta ou incoerente. Pode ser até uma tendência a nos distrair do essencial da vida e pode se tornar mais uma mercadoria a ser comercializada nesse nosso mundo que transforma tudo em commodities.
UMA RAZÃO FUNDAMENTAL
Uma pergunta que uso para começar a falar dos por quês é a seguinte: Qual é a principal diferença entre sua casa e a casa de sua bisavó? Qual a mais fundamental?
Depois de muito pensar, e comumente não perceber, recebo respostas vagas, ou um simples “não sei”. A partir daí eu tento mostrar à maioria que a diferença é que nossas casas são Centros de Consumo, enquanto as de nossas avós e bisavós eram Centros de Produção. Comida, roupas, energia, insumos, decoração, presentes e objetos de uso eram produzidos nas casas. Quase tudo o que a família precisava estava ao alcance das mãos - de habilidosas mãos - que não só produziam, mas também consertavam, mantinham e adaptavam a novos usos quando algo se tornava definitivamente irrecuperável.
Olhe para sua casa, de tudo o que vocês usam, qual é o percentual produzido por vocês? Quanto da comida, da energia, das roupas, dos ingredientes, das decorações é fruto de suas mãos? Como estas coisas entraram na sua casa? Como elas se tornaram parte de sua vida? Qual sua habilidade para mantê-las sem usar uma empregada, chamar um mecânico, comprar um substituto ou pagar por um serviço?
Um exemplo fácil de perceber no que nos transformamos é visto na montagem de uma casa. Antigamente uma menina começava a fazer seu enxoval ainda na infância, levando anos para ter lençóis, toalhas, acumulando objetos, pintando, bordando e costurando. Não havia ai somente o lado artístico e romântico da coisa. Era de ordem prática a razão que gerava belezas e exclusividade de peças: demorava muito, seria muito caro e muitas outras atividades se intercalavam com essa tarefa, e por isso era necessário começar cedo. E hoje? O cartão de crédito, as listas de chá de panela e de casamento em lojas de departamento (ou em lojas exclusivas) substituíram milhares de horas de pensar, de preparar-se, de conviver e de aquisição de habilidades, todas centradas no lar.
Atualmente, para obter os meios para ter uma casa e mantê-la equipada, sacrifica-se o lar. Horas e horas de trabalho exaustivo, empregos duplos, tráfego insano, filhos o dia inteiro longe dos pais. Para quê? Para obter o único meio atual de acesso a tudo que um dia nos foi natural: O Dinheiro.
E nossas casas se entulham de coisas jamais usadas, de máquinas para ganharmos tempo, e perdermos vida, nossas cozinhas cheiram a “Bom-Ar” ao invés de exalarem o perfume de vinha d'alhos e pães fermentando, e nossos fogões – caríssimos - são usados nos fins de semana, ou para aquecer comida pronta.
Se desejamos ter um por quê para a retomada que intutitivamente nos atrai, talvez pensar em retomar nossas casas como centro de produção e não simplesmente como centros de consumo fosse um bom ponto de partida.
MAS ... E POR QUÊ?
Deus nos criou fecundos. Não somente fecundos de filhos, mas da capacidade de criar, de produzir e de manter o ciclo da vida, e vida em abundância. Nos fez produtores, e isso nos torna sua imagem e semelhança. O ser humano consumidor, possuidor de um poder capaz de fazer surgir tudo que precisasse sem precisar usar as mãos, o talento e as habilidades dadas por Deus é fruto de uma distorção da criação.
Inicialmente somente os poderosos tinham acesso, por meio de muita força e violência, a ter casas imaculadas, a manter tudo em ordem sem precisar fazer força, a comer sem pensar na produção e a se deslocar sem precisar caminhar. Só um faraó, um César ou um rei, um nobre, em geral mantido no poder por meio de alguma forma de opressão, teria acesso a tais coisas. Inseguros, tais nobres viviam com medo, cercados de guardas, e usualmente sendo vítimas de inveja e traição.
Ambos os aspectos se tornam hoje parte da vida normal de uma crescente massa de pessoas. Que, tal qual os reis e nobres do passado, consomem, destroem, e se mantém aguerridamente apegados ao poder de possuir. Igualmente aos nobres do passado, passou a ser objetivo do ser humano comum delegar seus filhos a tutores, o dia inteiro e por longos períodos , para depois recebe-los de volta quando mais velhos e prontos para assumirem o papel de mandantes (nunca de produtores). Doze horas de estudo, longe dos pais, com tutores delegados era coisa de Rei, e hoje se tornou “direito de todos”.
Da mesma forma como este tipo de postura, no passado, criou impérios e gerou ruinas, nosso atual império de consumo e inabilidade se encaminha para o colapso. Se queremos sobreviver, retomar nossa humanidade e dar outro rumo à vida, é urgente que saibamos que voltar à situação para a qual Deus nos criou: seres criativos e com grande potencial de produzir e conduzir-se no ciclo da vida. Um aspecto que nos dá a dignidade intrínseca de sermos feitos à sua imagem e semelhança, partícipes da criação e produtores de comida, cultura e cultivo, fazendo tudo isso como a expressão da maneira adequada de cultuar.
EMPREGO POLUI
Os desafios ambientais com os quais lidamos todo dia estão relacionados a essa transformação de nossas casas em Centros de Consumo.
Veja bem: Tudo que entra em casa gera embalagem e sai na forma de poluição. Nada fica, nada é aproveitado, tudo é jogado fora, como se “fora” existisse. Para tantos que falam de jogar algo fora, deve existir uma mágica no universo, uma vez que “fora” significaria uma espécie de buraco negro onde tudo sumiria, quando de fato o que ocorre é que nosso “fora” significa que algo que não queremos deva ser lançado na cabeça de outra pessoa, de outro sistema ou de outra vizinhança. Transformamos o Ciclo da vida em Cadeia de geração de lixo. E nos prendemos nessas correntes intermináveis que acabam por nos envenar corpos e mentes.
Para termos acesso a essa cadeia, buscamos dinheiro, e para obtê-lo nos submetemos a mais emprego. Nos coisificamos – reificamos segundo Marx – viramos peça de engrenagem e para manejar a situação buscamos ter mais e melhores empregos e com isso criamos muita poluição. Além de transformar a cadeia em algemas para a vida toda.
Para empregarmo-nos temos dois carros por família, ou usamos muito transporte de massa. Comemos comida pronta para ganhar tempo, inflamos as praças de alimentação de cada Shopping Center, onde produz-se em média dois containeres por dia de restos de alimento que irão apodrecer em um aterro sanitário. A cada refeição geramos saquinhos plásticos, colheres plásticas, copos plásticos, facas plásticas e muito papel, energia e barulho que acompanham cada empregado, ou executivo, enquanto usufrui de sua ração diária. Nossos filhos vão a escolas e geram mais engarrafamento e stress, mais transportes, mais lanchinhos, embalagens e mais embalagens. Como a comida deve ser fácil e rápida, snacks entram no lugar de frutas ou pães, e com isso mais embalagens. Máquinas e mais máquinas, roupas compradas em lojas, e tudo que nos auxilia a consumir mais, ter melhor aparência e adequarmos nossa vida ao emprego, polui e acelera o sistema. E como pagamento por nosso esforço, ganhamos dinheiro, para comprar mais, gastar mais e poluir mais.
Emprego polui. E só nos empregamos por que não sabemos fazer outra coisa a não ser gerar dinheiro, para comprar mais e fazer menos. E no meio disso, para obtermos a impressão de descanso, nos entretemos diante de alguma bobagem, para que o consumo nos tenha entre tempos. Nos divertimos, para que nossa mente divirja daquilo que é importante. Saímos em grupos, para não sermos importunados pela família. Ligamos a TV para desligarmos a mente daquilo que nos oprime.
Uma boa medida para combater a extrema poluição que assola nosso planeta seria a busca do Direito ao Desemprego Criador (um bom livro do Illich disponível aqui).
Por essas e outras razões, posso dizer que é importante que nossa agenda transcenda nossa simples consciência ecológica, ou nossa tendência ao uso de produtos naturais, ou nossos gostos pessoais. Para um por quê efetivo e que dê uma razão para obedecer aquilo que nossos corpos e mentes, de maneira intuitiva assim como quem tateia no escuro, nos estão levando a desejar.
Temos uma razão, nossa dignidade de seres humanos, criados à imagem de Deus e não frutos de uma acaso cósmico nos chama de volta, numa espécie de saudade daquilo que nunca conhecemos, para que possamos seguir em frente, leais e esperançosos na redenção que um dia nos alcançará.
Com muito carinho
Claudio Oliver – Primeiro dia da Primavera de 2010

Comentário de Claudio Oliver disse...

O Cy
Muito obrigado pelo carinho.
O texto do jornal na verdade você pode acessar aqui:
http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?tl=1&id=996097&tit=No-Mossungue-que-nao-conhece-a-solidao

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