quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Os desabrigados e os “revolucionários”


do Blog 


Era uma favela cênica, de bambu e papelão, a ser construída durante a madrugada na praia de Icaraí  



Pouco tempo atrás, fui chamado para uma manifestação dos desabrigados das chuvas de abril, em Niterói – por ausência de ações preventivas - e reparatórias - do poder público, que não cumpre as leis e nem o papel coletivo para o qual foi “eleito”. Era uma favela cênica, de bambu e papelão, a ser construída durante a madrugada na praia de Icaraí, para expor a situação dessa parcela da população, tradicionalmente desprezada pela sociedade, que depende dela para os serviços básicos, para o trabalho mais duro, mais indispensável e mais mal remunerado.

Cheguei pouco depois da meia noite, havia cerca de dez pessoas já iniciando a montagem, com bambu e papelão. Minha contribuição foi pintar umas portas e janelas, terminamos com o dia claro. A cidade acordava e a favelinha, com sua vala negra, lixos espalhados, ratos e aranhas de borracha, varais de roupas e fios “elétricos” foi notícia até fora do Brasil.

Depois me convidaram para uma reunião, no DCE da UFF. Achei estranho. Área acadêmica não combina com movimento popular. A língua é outra, a vida é outra. Os acadêmicos têm um claro sentimento de superioridade. Uns arrogantes, outros gentis, mas sempre superiores à maioria sabotada em educação. A universidade não assume obrigação moral com quem a sustenta. O curso “superior” não ensina humildade. E não deu outra.

Acadêmicos – não desabrigados - falavam e tomavam notas, conduzindo a reunião. Natal das crianças pobres, ônibus contratados e Museu da República. Por um instante me pareceu estar no lugar errado. Nada contra, acho ótimo um Natal decente pra essas crianças que não têm. Mas ali, no comitê dos desabrigados? Por que não vão procurar diretamente as comunidades? Há muito mais crianças por lá. Além do mais, prioridade de desabrigado é abrigo, não festa. Em seguida, um outro tomou a palavra e cobrou engajamento do grupo. Que falta de respeito. Pobres acadêmicos. Em sua cegueira orgulhosa, pensam que falta de estudo é falta de personalidade. Não percebem que as dificuldades materiais produzem uma garra que esses doutores não podem imaginar. Tivessem humildade e se surpreenderiam com a sabedoria, a resistência dessas pessoas aos golpes mais duros da vida. E perceberiam o quanto têm a aprender.

Alguém falou em curso de formação política. Outro levantou o braço e mandou um “questão de ordem!” Eu levantei e saí da sala. Lá fora, tentei organizar os pensamentos. Alguma coisa estava errada. Em nenhum momento aquelas pessoas falaram de casas. Claro, não eram desabrigados. Claro, suas prioridades eram outras. Quais? Não sei, mas não eram casas. Parece que estão querendo controlar o comitê. Gostaria de estar enganado, mas se não estiver, a última coisa que interessa a esses acadêmicos é que se obtenham casas para os desabrigados. Quanto mais durar o grupo, melhor pras suas entidades e agremiações.

Se o grupo aceitar essa interferência, está perdido. Não tenho mais vontade de ir às reuniões, apenas às ações. Aliás, não havia nenhum desses acadêmicos de partidos e siglas na madrugada, em Icaraí. E foi tudo direto, fácil, em harmonia. Sem ninguém mandando. Quer dizer, “organizando”. Deus me livre dessas “organizações” e da sensação de alguma coisa por trás. Inclusive conseguir entrada nas diversas comunidades representadas pelos desabrigados do comitê.

Não quero aqui ofender ninguém, não estou acusando má-fé, até pelo benefício da dúvida. Mas não faz sentido falar de qualquer assunto, em reunião de desabrigados, que não seja a obtenção de casas para os milhares que as perderam. O resto é perda de tempo, energia e oportunidades. Pelo menos para os que estão sem casa.

Quem quiser conduzir as massas, que vá entregar pizzas.

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