sábado, 13 de novembro de 2010

A nossa paisagem

Dora Hees de Negreiros
Niterói banhada pela Baía da Guanabara - Prédio dos Correios ao fundo


A paisagem é muito mais do que “um espaço de terreno que se abrange num lance de vista” como definida no  Aurélio. Ela tem adjetivos, pode ser urbana,  rural, árida ou cheia de vida, interior ou marinha, montanhosa ou não e pode ainda ter muitas outras qualidades dependendo do ângulo de visão e  de nosso estado emocional. Pode ser opressiva e  irritante ou aprazível e até aquela que traz calma, grandiosa e nos enleva.

Ela é o somatório do natural, original, com as alterações que lhe foram feitas pelo homem. Incorpora a cultura à natureza. É a paisagem que distingue os ambientes,  que torna o Rio de Janeiro diferente de Nova York, de Brasilia ou de Hong Kong.  

A paisagem de uma  cidade representa um valor para os seus habitantes. É um valor subjetivo e de cálculo difícil, mas profundamente importante.
No Rio de Janeiro, as montanhas junto ao mar, os símbolos e monumentos humanos colocados em locais estratégicos como o Cristo no Corcovado e  o teleférico no Pão de Açúcar caracterizam uma paisagem ímpar.  As praças, os jardins, os edifícios fazem parte desse conjunto que é uma paisagem de  todos nós, um bem público e de uso comum. A orla da Baía de Guanabara pertence aos cariocas e fluminenses que a apreciam.

Mas desde os dias em que fazia  clareiras na floresta  para morar, o homem tem se aperfeiçoado nas modificações introduzidas na paisagem natural. Antes temporárias e pontuais, agora as intervenções são cada vez maiores e mais permanentes. As manchas das megalópolis sobre a terra já são visíveis do espaço sideral.

Em alguns lugares nos afastamos tanto do ambiente natural que uma criança  pode viver toda a sua vida conhecendo somente apartamentos, asfalto, a água que sai da torneira, a terra do vaso de plantas e os legumes e  frutas do supermercado: a sua paisagem é só a humana..

Sabemos também que a paisagem transcende ao momento político-administrativo. A descaracterização na paisagem autorizada por um governo estará presente  para ser avaliada pelas próximas e pelas distantes gerações. Hoje não são mais aceitas as crateras, antes feitas para a exploração do granito, que deixaram  marcas eternas em algumas de nossas montanhas, como a que existe no morro do Morcego em Jurujuba, Niterói.
Ressaca na Baía sobre antigo trampolim na Praia de Icaraí, com Morro do Morcego ao fundo


Cabe a nós cuidar do que gostamos. Devemos estar alertas para impedir que  as  alteração da  nossa paisagem sejam aprovadas sem a nossa participação.


Dora Hees de Negreiros - Engenheira química, trabalhou na FEEMA, onde foi diretora, e em outras entidades da administração ambiental do Estado do Rio de Janeiro. Participou do Grupo de Despoluição da Baía de Guanabara e desde 1993 está na administração do IBG-Instituto Baía de Guanabara.

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