segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mais uma vez: Niterói não está preparada para chuvas de verão

Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio de Janeiro vistoria encostas da cidade e constata o risco de novas tragédias. 

OFluminense por: Thaís Sousa 31/10/2010

Em abril, uma tempestade sem precedentes devastou Niterói, provocando 168 mortes e deixando mais de 7 mil desabrigados. Sete meses depois, e faltando menos de dois meses para o verão, pouco parece ter sido feito para reconstruir o que foi destruído e evitar novas tragédias. Segundo moradores, obras de contenção das encostas ainda não foram realizadas ou seguem a passos de tartaruga, como denuncia o iatista Torben Grael, de 50 anos, que ainda perde o sono em noites de chuva, desde que sua casa foi atingida pelos deslizamentos. “Niterói não está preparada para as próximas chuvas e a tragédia do último verão pode se repetir”.
A constatação é do presidente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea-RJ), Agostinho Guerreiro. Em julho, a entidade realizou uma vistoria nos principais pontos de deslizamentos da cidade e orientou a Prefeitura a realizar uma série de intervenções. Três meses depois, em nova vistoria esta semana, a convite de O FLUMINENSE, Guerreiro constatou que nada do que havia sido proposto foi executado.
“A estagnação da Prefeitura diante dos resultados da última tragédia é preocupante”, afirma o presidente do Crea, depois de uma ronda pela cidade. “Só vemos hoje uma grande obra no Bumba, que está sendo feita pelo Governo do Estado. Mas existem, em toda a cidade, mais de cem pontos de deslizamento que precisam da ação da Prefeitura e não têm. A Prefeitura de Niterói tem recursos mas não tem prioridades. Dessa época em diante, a qualquer momento, podemos ter uma forte chuva”, alerta o especialista.
Entre os moradores de áreas afetadas pelas chuvas, a tristeza e a indignação se misturam ao medo. “Toda vez que chove é um pesadelo”, desabafa a auxiliar de enfermagem Marli Gomes, de 55 anos, que, sem ter para onde ir, teve que voltar a viver no que sobrou de sua casa no Morro do Bumba.
“Os tapumes que foram colocados lá são só uma tentativa da Prefeitura esconder o que houve”, critica o iatista Torben Grael, se referindo à situação de sua rua, a Estrada Fróes, que liga Icaraí a São Francisco, na Zona Sul.
Sugestões – As intervenções sugeridas pelo Crea para a cidade incluem medidas simples e complexas. Entre as simples, a primeira delas seria a realização de poda regular de árvores.
“As copas pesadas propiciariam a queda das árvores, danificando o solo e abrindo crateras que podem acabar encharcadas. Outra ação simples seria recompor a vegetação dos terrenos com grama para diminuir riscos de deslizamentos”, enumera o engenheiro.
Entre as ações complexas, o Crea orientou o município a investir em contenção de encostas e em projetos habitacionais para retirar as famílias de áreas de risco. Também orientou a  intensificar a fiscalização para evitar o crescimento desordenado da cidade. A criação de uma fundação geotécnica também constava nas propostas. “Essa fundação teria, inclusive, a função de autorizar ou não as construções. Mas pelo que entendi, o atual projeto está esbarrando em entraves políticos”, avaliou Guerreiro.
O engenheiro civil e conselheiro do CREA Abílio Borges lembra que é dever do Executivo fiscalizar o território para impedir a construção de imóveis irregulares em terrenos inapropriados. Esse seria o principal trabalho de prevenção a ser realizado atualmente na cidade.  “Mas o que vemos na cidade é a ausência da Prefeitura. Se não forem feitos trabalhos de prevenção, Niterói vai sofrer mais uma vez como nas chuvas de janeiro, que chegaram a matar pessoas aqui e em Angra dos Reis. E também vai sofrer com as chuvas de abril. No caso das habitações que foram construídas irregularmente, agora que elas já existem, cabe ao Executivo ajudar essa população a sair desses locais”, disse Abílio Borges.
Descaso - As chuvas que derrubaram o Bumba também causaram danos irreparáveis à Estrada Leopoldo Fróes, uma das vias mais valorizadas da Zona Sul da cidade, que liga Icaraí a São Francisco. Na ocasião, um deslizamento de terra matou um homem e deixou a mulher e a filha dele feridas. O carro em que estavam foi atingido por um deslizamento e empurrado para dentro da propriedade do iatista Torben Grael, de 50 anos, que conseguiu retirar mãe e filha dos escombros.
Hoje, quase sete meses depois da tragédia, o iatista espera mais do que reparos em sua casa. A encosta que deslizou em frente à sua casa segue sem contenção. “Está tudo do mesmo jeito que estava em abril. A gente tentou vários contatos com a Prefeitura e não conseguiu nenhuma resposta. Na chuva da última quarta-feira, desceu mais material da encosta e nossa preocupação foi muito grande. Foi difícil dormir”, relata o iatista, revelando que perde o sono em noites chuvosas desde que sua residência foi atingida pelos deslizamentos. Cansado de esperar por uma ação da Prefeitura ele recorreu à Justiça pedindo as obras no local, e ainda aguarda um parecer.
Do outro lado da cidade, a auxiliar de enfermagem Marli Gomes, de 55 anos, moradora da Estrada do Viçoso Jardim, que teve a casa interditada após as chuvas de abril, vive drama semelhante. “A cada chuva a gente tira o carro da garagem e se prepara para fugir a qualquer momento. Agora, a gente só pensa em salvar a família”, desabafa.
No local do maior deslizamento da cidade, o Bumba, uma enorme cratera ainda faz lembrar o dia 7 de abril, quando o morro veio abaixo. Ao lado, as casas que foram interditadas e ficaram vazias durante meses voltaram a ser habitadas por moradores sem perspectiva de uma vida melhor. Uma delas pertence a Marli Gomes, que vive com a filha, três netos e um tio idoso. Sem ter para onde ir, a família voltou ao Viçoso Jardim.
“A gente teve que voltar, mas toda vez que chove é um pesadelo. A rua ainda alaga e a gente tem medo de novos deslizamentos. O Governo do Estado está fazendo a praça no Bumba, mas a Prefeitura nunca mais apareceu por aqui”, acusou.
Tempo fechado - Segundo o meteorologista Rodrigo Mello, do Sistema de Meteorologia do Estado do Rio de Janeiro (Simerj), o verão será marcado pelo fenômeno “La Niña”, que é caracterizado por um leve resfriamento da água do mar. O fenômeno acarreta uma série de consequências à atmosfera. Na Região Sudeste do Brasil, isso significa que o verão será quente e seco. Mas apesar da previsão o especialista esclarece que é impossível prever um fenômeno como as chuvas de abril.
“Temos algumas formas de prever o índice de chuvas por mês, mas elas podem ser espaçadas ou concentradas em um dia só. Foi isso que aconteceu em abril, quando choveu em dois dias o previsto para o mês inteiro”, explica.
Transparência - Através de sua assessoria de imprensa, a Prefeitura alegou que aplicou recursos próprios no atendimento aos desabrigados das chuvas e realizou obras emergenciais e de limpeza da cidade, num montante que chegaria a R$ 10 milhões, mas apesar de questionada, não indicou os locais das obras até o fechamento desta edição.
A Prefeitura também alegou ter estruturado a Secretaria Municipal de Defesa Civil, mas a pasta, lançada em agosto conta atualmente em seu corpo técnico com sete bombeiros para atender a uma população de mais de 600 mil habitantes, além um engenheiro, um geólogo, um geógrafo e estagiários em Arquitetura, Engenharia e Geologia.
Quanto à criação da Fundação Geotécnica de Niterói, a chamada Geo-Nit, o quadro de pessoal, o regimento e o número de cargos ainda estariam sendo estudados, em parceria a Geo-Rio e o Departamento de Recursos Minerais (DRM), para utilizar as estruturas dos referidos órgãos como modelo de referência e adequá-lo à realidade de Niterói.
Leitores comentam no site de O FLUMINENSE:
“A cidade está entregue ao caos e o prefeito se esconde! A Zona Norte sempre esquecida! E a Zona Sul que sempre o apoiou agora sente o gosto do descaso! Prefeitura de desvios de dinheiro público e má administração! Criadas secretarias de fachada para cabide de empregos e a cidade abandonada! Vergonhosa administração!!!” Paulo Eduardo
“Niterói e principalmente a Região Oceânica está uma vergonha.” Luiz C.
“Antes todos tinham orgulho da cidade, a cidade sorriso com a melhor qualidade de vida. Hoje, já não podemos contar com ninguém cada chuva mais forte a população entra em desespero com medo de outra catástrofe.” Beatriz

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