domingo, 14 de novembro de 2010

50 palestras em dois dias na mata

Nov 12, 2010



No último fim de semana aconteceu em Manaus, a bordo de um hotel flutuante em plena selva, oTEDxAmazônia, evento que selecionou 400 convidados para ouvir cerca de 50 palestras em dois dias, um verdadeiro pacote de informações que reuniu pensadores de diversas partes do mundo – México, Estados Unidos, Alemanha, Colômbia, Finlândia, Peru, Croácia – e também do Brasil, com palestrantes de norte a sul vindos de Alagoas, Amazonas, Pará, Rio Grande do Sul, São Paulo, Bahia, Ceará. Todos tiveram até 15 minutos no máximo para falar.

Para participar, os convidados tiveram que responder a perguntas nada usuais, como “qual é o seu sonho?”. Foram dois mil inscritos. O tema central do TEDxAmazônia era “qualidade de vida para todos os seres”, o que explica a diversidade de palestras que, juntas, levavam sempre ao mesmo denominador comum: soluções criativas e inspiradoras na transformação do mundo para melhor.

O empresário holandês Stef Van Dongen poderia ter morrido se não tivesse ouvido seus instintos e descido de um vulcão que pouco tempo depois entrou em erupção. No dia seguinte resolveu fazer da vida o que tinha vontade e, não demorou muito, criou a Enviu, uma incubadora de empresas com negócios sustentáveis. Seu projeto mais famoso é o Sustentable Dance Club, uma boate em que energia elétrica é gerada graças ao impacto dos pés das pessoas no chão.

O castanheiro Zé Claudio Ribeiro da Silva vive em Marabá, no Pará, contou o que vê por aquelas bandas: a destruição desenfreada de castanheiras, árvores protegidas por lei e fonte de renda para muitos extrativistas locais. Por causa de suas denúncias, é constantemente ameaçado de morte. “Tenho medo, sou humano, mas não posso me calar. Preciso fazer a minha parte pelas futuras gerações”.  A determinação também faz parte do caminho do programador de software Zach Lieberman. Quando viu que o artista plástico Tempt1, debilitado por uma doença, só conseguia mexer os olhos, criou um óculos capaz de detectar movimentos de pupilas e os transmitir direto ao computador. Hoje seu amigo desenha, literalmente, só pelo olhar. 
Silvio Marchini é biólogo, educador, fundador da Escola da Amazônia, criador do projeto Conviver Gente e Onças e trabalha duro para construir uma nova visão a respeito de onças . “Biólogos não são treinados para estudar o comportamento humano”. Ele procurou desmistificar o pavor que acomete os seres humanos em relação a ataques do felino. “O que as pessoas sentem e pensam sobre as onças é socialmente construído. Ninguém tem medo do mosquitinho da malária, que mata milhares de pessoas, mas todo mundo teme ataque de onça, quando só temos um caso registrado no país, em 2008”.  O medo e a ignorância causam a morte de muitos desses animais e Silvio trabalha na contramão desta desinformação.

Hugo Penteado é economista e subiu ao palco para informar com todas as letras que “não existe uma variável sequer na economia que contabilize a natureza”. E afirma, antes de finalizar: “O planeta é mais importante do que as pessoas e não o contrário”. Enrique Leff, seu colega de profissão mexicano, complementa: “precisamos construir uma nova racionalidade, em que a economia se alimente da natureza para se manter”. Para ambos, a economia precisa mudar radicalmente seu jeito de atuar no mundo.

O americano Chris Carlson é ativista urbano, criador do Critical Mass, mais conhecido no Brasil como “bicicletada”. “Chega do Do it Yourself, vá pelo Do It Together”. Ele questionou nossos hábitos de consumo e de vida. “5 ligações, 25 SMS, 10 emails para marcar um encontro com um amigo daqui 3 semanas. Onde chegaremos com isso?”. O cientista Antonio Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), também provocou importantes reflexões ao propor um novo olhar sobre a Amazônia. “Temos tanta arrogância com a tecnologia que ignoramos a invisível competência tecnológica da vida. Conhecer o cosmos é incrível, mas vamos virar o Hubble de ponta cabeça e olhar mais de perto para a Terra, começando pela floresta amazônica, um local mais estranho para nós do que galáxias distantes?”.

Dentro deste contexto, o jornalista Felipe Milanez denunciou o anonimato de tribos indígenas que correm o risco de desaparecer, o que motivou os participantes a lançar o desafio do TEDxAmazônia: salvar os remanescentes de índios Kawahiva, que atualmente vivem entre o norte de Mato Grosso e o sul do Amazonas.

Para balancear, não faltaram risadas com apresentações de Magnólio Oliveira, do Projeto Saúde e Alegria, que se pintou de palhaço durante sua palestra e durante a qual contou sobre seu trabalho com comunidades nos arredores de Santarém, no Pará; de Antonio Nóbrega, bailarino que pediu para o público dançar; de Edgard Gouveia, um dos criadores do Instituto Elos, que fez todo mundo se tocar e depois praticar imobilidade, com a finalidade de mostrar que juntos podemos fazer muito e, por fim, de Rafael Kenski, que se empenhou para convencer boa parte dos participantes que qualquer desafio vale a pena quando nos divertimos com o que fazemos.

Os temas das apresentações foram, portanto, transversais. Algumas tiveram dança e música, outras giraram em torno de meio ambiente, sustentabilidade e Amazônia, mas também passaram por exemplos de vida e histórias comoventes como parto, aborto, homossexualismo entre animais, juventude. Conheci muita gente com a mente borbulhando em reflexões - não houve uma palestra sequer que não tenha feito a cabeça pensar e o coração sentir.

Todos os palestrantes permaneceram no local durante os dois dias e o aprendizado também foi grande para quem esteve em cima do palco. “Falar no TEDxAmazônia foi o maior desafio da minha vida”, me disse um contente Antonio Nobre, cientista renomado de uma instituição idem e que trabalha pela ciência com o máximo de sua humana sensibilidade. (Karina Miotto)

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Missão Salve Kawahiva – Oasis AmazôniaFotos do TEDxAmazônia


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